O FUTURO DEMOCRÁTICO DA GUINÉ-BISSAU NO ESPAÇO LUSÓFONO


FRANCISCO JOSÉ FADUL

A convite do MIL – Movimento Internacional Lusófono – na sede da Associação Agostinho da Silva, em Lisboa, Rua do Jasmim, 11 – 2º

04.JUL.2009


Introdução


Os recentes acontecimentos sangrentos na Guiné-Bissau representam novo ciclo das periódicas erupções de violência gratuita e criminosa que vêm conturbando o país, constrangendo os seus cidadãos, pauperizando a sua economia e descaracterizando o seu Estado e a luta de libertação consentida pelo seu povo, sob a orientação estratégica de Amílcar Cabral, em busca da paz e do progresso para cada um dos seus filhos.


Legitimidade democrática e mandato social em África


Em África, a prolongada experiência de poderes exercidos com legitimidades distintas da democrática, a única que passa pelo veredicto popular da eleição e, portanto, apreende o sentido do poder como mandato conferido pela sociedade, desvirtuou a noção de Estado na consciência de não poucos actores sociais, diluindo-lhe especialmente o sentido do serviço público aos cidadãos e o da finalidade última de toda a Administração residindo na satisfação das necessidades materiais, morais e espirituais do indivíduo.

Perdida a noção do mandato social, extinguiu-se no foro psicológico o vínculo obrigacional de prestação de serviço e contas dos mandantes e, em decorrência, a necessidade de qualificação política, técnica, ética, social e humana como pré-condição para a legitimação da ambição de detenção e exercício do poder.

O poder desqualificou-se, tornou-se coisa vulgar, fácil, descaracterizada, imoral, associal, onde todo o aventureiro e mesmo o criminoso confesso julga dever aceder, sem se perguntar se conhece da matéria, se tem um projecto ou condições de o conceber, ou o que pretende realizar! Basta ter força, a das armas ou a do dinheiro, mesmo se de associações criminosas.

A noção de legitimidade do poder cristalizou-se superficial, leviana e cinicamente na ideia de vencer eleições, pouco importando, maquiavelicamente, os processos utilizados para chegar a essa vitória – ainda que dentre os mesmos se avolumem a corrupção e o peculato, o narcotráfico, a repressão, a compra de consciências dos eleitores – e posto o que também tudo passaria a ser aceitável ao poder eleito, ainda que a mais atroz opressão, repressão, amordaçamento e espoliação material dos cidadãos, num completo falsear quer da legitimidade política (que não pode limitar-se à vitória eleitoral, mas deve consubstanciar os actos do poder eleito, para que a legitimidade da conquista do poder seja acompanhada da legitimidade do exercício deste), quer dos fins do Estado, quer da responsabilidade deste face à sociedade e seus actores constituintes, sejam estes individuais ou colectivos.

Torna-se pois imperioso restituir ao Estado em África a sua dignidade, seriedade e sentido de serviço público, começando quase imperativamente por uma clarificação prévia de conceitos, em jeito de focalização sociológica e filosófica da questão do Estado enquanto actor societário colectivo que se nutre da conjugação, com um sentido predefinido, de outros actores societários, individuais e colectivos.

A comunidade humana nasce como complexo de condutas orientadas por normas aceites e interiorizadas pelos indivíduos, isto é, orientadas por um sentido socialmente assumido, que pode sofrer alteração-adequação a cada etapa do seu percurso histórico.

Mas, se a comunidade se constitui, no fundo, como estrutura de condutas orientadas por um determinado sentido, já o Estado – a comunidade estatal – é uma comunidade juridicamente constituída, isto é, uma comunidade que se constitui como estrutura de acção juridicamente organizada.

A dominação exercida pelo Estado sobre o agrupamento social comunitário – em nome da promoção entre as pessoas de uma convivência ordenada de forma harmoniosa, segura e pacífica - surge como um poder caracterizado pelo monopólio da força física e da correlativa e justificante aceitação ou obediência dos cidadãos: oboedientia facit imperantem.

A soberania do poder do Estado apresenta-se como a faculdade de legislar sobre os súbditos sem o consentimento destes, isto é, como uma faculdade independente perante os poderes internos e, igualmente, independente de poderes externos, um poder que se delimita unicamente a partir dos mandamentos divinos, das leis naturais e dos princípios gerais de direito, mas sem excluir a vinculação a contratos, quer internos ou de parceria social, quer externos ou de cooperação internacional (Weber, 1922: 28 ss.) (Luhmann, 1983: 106 ss.) (Bodin, 1576: III 1).

O poder estatal consolida-se assim não apenas como um fenómeno de política de força, mas também como um “poder político juridicamente organizado”, em que ao Estado cabe a “soberania de competência” ou “competência das competências”, isto é, o poder jurídico de decidir sobre o alargamento ou a limitação das competências do Estado ou, por outras palavras ainda, a “omnipotência do Estado”, um poder que goza ainda de unidade jurídica.

A unidade jurídica significa que não existem, no território do Estado, quaisquer competências de regulação soberanas que sejam autónomas ao poder do Estado (todos os órgãos que exerçam, sem ser do Estado – por exemplo os municípios – qualquer competência soberana no território do Estado, fazem-no por expressa atribuição de poder pelos órgãos estatais, a cujo poder de disposição ficam subordinados).


A cidadania como elemento dinâmico da democracia


Segundo Alain Touraine (Touraine, 1996: 95 ss.), “Não há democracia sem consciência de se pertencer a uma colectividade política, a uma nação na maior parte dos casos (...) ou ainda a um conjunto federal (...). A democracia assenta na responsabilidade dos cidadãos de um país. Se estes se não sentirem responsáveis pelo seu governo, (...), não pode haver nem representatividade dos dirigentes nem livre escolha dos dirigentes pelos dirigidos”.

E acrescenta: “O termo “cidadania” refere-se directamente ao Estado nacional. Mas pode-se dar-lhe um sentido mais geral, como faz Michael Walzer, que fala de direito ao membership e de pertença a uma comunidade”.

Quer se trate de uma comunidade territorial quer se trate de comunidade profissional, a pertença, que se define por direitos, garantias e, portanto, por diferenças reconhecidas em relação aos que não pertencem a essa comunidade, governa a formação de exigências democráticas. “Não é a pertença em si mesma que é democrática; (...), mas o membership ou estatuto de membro opõe-se à dependência e define-se por direitos. Ele é uma das condições necessárias para a democracia”.

No nosso entendimento, reforça-se a concepção da cidadania como o alargamento e aprofundamento dos direitos, garantias e liberdades fundamentais dos cidadãos, enquanto condição do surgimento e da consolidação de um espaço democrático que estimule à iniciativa, à criatividade e à responsabilidade sociopolítica dos cidadãos, logo, à participação social mais ampla e assídua e à correlativa delimitação e limitação dos poderes do Estado face ao indivíduo, que deve ser o centro e o fim de toda a acção política.

Numa outra acepção, cidadania é a salvaguarda ou garantia pelo Estado, desses aprofundados direitos, garantias e liberdades fundamentais dos cidadãos, do que decorre que a cidadania é, assim, o próprio aprofundamento do conceito de nacionalidade donde se torna possível ter nacionalidade e não gozar de cidadania, num Estado nacional, como, igualmente, num espaço multinacional – como, por exemplo, o da União Europeia - dispor de cidadania supranacional, que não ponha em causa a nacionalidade originária: por exemplo, um português, um francês, um alemão, gozam da cidadania europeia, conjunto de direitos fundamentais avançados reconhecidos aos cidadãos de cada um dos países membros da União Europeia, mas mantêm intacta a sua nacionalidade portuguesa, francesa e alemã.

O mesmo é dizer, se quisermos transpor esta noção para o espaço lusófono, que a comunidade de laços históricos, morais, culturais e consanguíneos que determinaram a constituição da CPLP é o substrato que propende para uma cidadania lusófona (uma como que protocidadania lusófona), que não agride nem tem de contender com as nacionalidades geradas em torno dos Estados nacionais que a enformam. Na realidade, não é a CPLP que cria a comunidade lusófona que, nesse caso, não passaria de uma associação de Estados (!), pois o conceito de comunidade é aplicável às realidades sócio-humanas de génese tácita, paulatina, crescente e irreversível, porquanto aculturadas, em oposição ao conceito de associação, cujo surgimento depende de um acto voluntário de criação ou adesão.

Quando os actores políticos não estão sujeitos às exigências dos actores sociais (Touraine, op. c.: 83-84), perdem a sua representatividade. “Eles podem, postos assim em desequilíbrio, oscilar para o lado do Estado e destruir a primeira condição da existência da democracia, a limitação do seu poder”. Mas pode também acontecer que, além de se subtrair às suas ligações e deveres para com a sociedade civil, o façam igualmente para com o Estado, passando a não perseguir outro fim que não seja o do aumento do seu próprio poder”, corrompendo assim o sistema político democrático”.


A situação do Estado na Guiné-Bissau


A crónica inconformidade dos actores políticos da sociedade bissau-guineense com os interesses dos actores sociais tem vindo a alienar o Estado do seu papel de construtor da comunidade juridicamente organizada que deve subjazer-lhe e constituir a fonte e o objecto da sua acção.

O poder está doente socialmente, carecendo de urgente transparência democrática, organização, eficácia, sociabilidade e responsabilidade para cumprir os seus fins numa sociedade onde, no entanto, ao Estado cabe ainda primacial e liminarmente consolidar os vínculos de pertença dos indivíduos ao agrupamento social global e criar entre estes vínculos de solidariedade que favoreçam a livre integração humana e societal – isto é, por outras palavras, construir a nação - sem esquecer o indispensável papel de regulação da acção dos diversos actores sociais.

O centralismo, o autoritarismo, o secretismo, a insolvência, a crise institucional, a ineficácia e a incipiência da administração do Estado, levam à diluição da participação dos cidadãos no processo social, à ruptura da solidariedade nacional a favor de lógicas primárias como as dos fundamentalismos étnico e religioso, à emergência de poderes paralelos de lógica fracturante e subversiva (como os esquadrões de associações criminosas usando a força pública) e à penetração de mecanismos de disfunção como o narcotráfico.

Mas, obviamente, trata-se de um Estado do qual a sociedade legitimamente espera um sentido de causa e ética nacionais, a partir da transversalidade total relativamente a cada uma das comunidades menores que a enformam, nas vertentes da etnicidade, da religião, da pigmentação cutânea, das disparidades regionais, do género, da filosofia, da origem e da progenitura.

Trata-se de um Estado que os guineenses desejam “pessoa de bem”, reflectindo as aspirações e interesses fundamentais de cada cidadão, apostado na lógica da racionalidade científica e tecnológica capaz de produzir progresso e modernidade constantes, numa permanente e progressiva alteração da qualidade das relações entre a matéria (recursos) e a energia disponíveis, através da decisiva aposta na capacitação humana e social para a operacionalização incessante dessa transformação.


Para tanto, o Estado devia estrar em condiçõpes de promover a transformação dos hábitos e das mentalidades no sentido da paz, da democracia e da cidadania. O Estado devia assumir-se enquanto regulador preventivo do sistema e, sendo necessário, também como regulador punitivo ou decisor de conflitualidades violentas já despoletadas.

O Estado não pode hipotecar este seu papel regulador, moderador e coercitivo, deixando os interesses sociais digladiarem-se até ao extermínio ou à dominação ilegítima dos mais fracos pelos mais fortes, sem que tal corresponda ao domínio da verdade sobre a mentira, do direito sobre o abuso ou o excesso.

Quando o Estado abdica desse seu papel substancial, como no meu país, os camponeses pobres e iletrados ficam à mercê da agiotice injuriosa dos poderosos e dos que “foram à escola” mas aí não aprenderam senão a instrução fria, abstracta, sem moral, sem humanidade, sem ética, sem sequer solidariedade.

Na Guiné-Bissau, os cidadãos comuns e as organizações sociais padecem ainda de um grave défice de liberdade e cidadania, que não se confunde, como atrás referimos, com a simples aquisição ou detenção da nacionalidade. Por outras palavras, somos guineenses, mas ainda não somos cidadãos, na acepção de Francisco Lucas Pires (Pires, F. L., 1994).
Um tal Estado, que não exerce senão algumas poucas das suas funções e se desvia dos seus fins, gera o recuo dos indivíduos e dos grupos sociais em relação a si, quer por desconfiança, quer por desprezo, do que decorre a redução ou até a quebra dos laços psicomorais ou do nexo de pertença-agregação à comunidade política que o próprio Estado encorpa e à qual dá o nome.

Surgem assim os sociologicamente inevitáveis actos de justiça privada; as conflitualidades irredutíveis entre grupos de interesses sociais; a emergência da violência como mecanismo regulador da injustiça e da frustração ou de imposição da lei do mais forte (grupo militar, étnico, religioso, profissional, familiar, partidário, ou outro disposto a afirmar a sua vontade numa perspectiva de realização particular, desconectada do todo social, cuja cabeça deixou de administrar) na ausência de outro mecanismo preservador do “sentido” ou finalidade inerente a toda a sociedade humana.

A este afrouxamento dos vínculos de solidariedade global, periga a estabilidade do poder que, então, em busca de base social de apoio, se volta instintivamente para os núcleos onde a solidariedade obedeça a critérios mais subjectivos e íntimos - os da raça; da etnia; da religião, da família, do partido – precipitando a ruptura do tecido social.

No que nos toca enquanto bissau-guineense, não pouparemos esforços nem regatearemos coragem e determinação a fim de que a Ciência seja aculturada na nossa terra e para que, nesta aculturação, o Estado da Guiné-Bissau se converta aos valores da legitimidade – não só a das urnas, mas igualmente à do exercício que faz do poder – e da responsabilidade social do poder, isto é, a obrigação de prestar contas à sociedade sobre o uso que dá ao poder, bem como a obrigação de garantir a democracia-cidadania nas relações entre os órgãos do próprio Estado entre si e nas relações entre o Estado e os cidadãos.-


O contributo possível e desejado do Espaço Lusófono


As sociedades contemporâneas, nas suas relações internacionais, mau grado o acentuado determinismo que as trocas materiais revelam no processo de globalização societal planetária, propendem a agrupar-se a partir de afinidades histórico-morais e culturais ou linguísticas, em torno das quais se organizam primeiro tacitamente, independentemente de posteriores convergências mais racionalizadas.

O Espaço Lusófono não escapa a esta regra sociológica. Assim é que, apenas alguns anos após o ciclo da colonização, as sociedades que o enformam, facilitadas pelos mecanismos que as articulam de há séculos, nomeadamente os dos transportes, do comércio, da cultura, da língua, da consanguinidade, enfim, da idiossincrasia, decidem assumir a sua identidade particular no concerto das nações, reconhecendo e formalizando os laços que as aproximam especialmente.

Com este reconhecimento e formalização, nasce a figura jurídica da CPLP, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, onde a prospectiva é a do adensamento e estreitamento das relações entre os membros (Estados e suas sociedades).

Este adensamento e crescente intimidade institucional ir-se-á manifestando através da criação paulatina de uma ordem jurídica que albergará e disciplinará progressivamente as inter-relações e articulações de natureza política, económica, social, cultural, administrativa, militar, de segurança e de desenvolvimento entre as suas partes constitutivas.

Ora, sem ser futurista, admito que dialecticamente esta nova ordem comunitária lusófona ganhará necessidades próprias de eficácia e generalidade resultantes da complexidade crescente das relações entre os sujeitos de relações internacionais lusófonas, eficácia e generalidade que terá de ir beber às ordens jurídicas das partes integrantes, ou seja, dos Estados membros da CPLP.

Neste processo societal comunitário, as soberanias nacionais dos Estados membros do Espaço Lusófono cederão, a breve trecho, quotas importantes a favor do ordenamento jurídico da Comunidade, como aliás já as cederam a favor da União Europeia (Portugal), do Merco Sul e da OEA (o Brasil), da CEDEAO (a Guiné-Bissau e Cabo Verde), da UEMOA (a Guiné-Bissau) da OEAC (São Tomé e Príncipe) e da SADEC (Angola e Moçambique).

O processo de cedência-transferência só tem sido lento porquanto entravado por razões de ordem psico-política e não de ordem estratégica no plano das relações internacionais: os complexos de colonizador e de colonizado, de que são portadores, designadamente os de descolonização mais recente. Todavia, dois factores vão contribuir para a aceleração das inter-relações no seio Espaço Lusófono: a Comunidade Internacional começa como que a delegar-lhe a solução dos interesses controversos emergentes em cada um dos seus países membros e, estes, por sua vez, começam a ganhar consciência da sua existência como factor estratégico mundial.

Impõe-se todavia que este crescimento e adensamento da ordem comunitária no Espaço Lusófono decorra no estrito respeito das normas de Direito Internacional e dos princípios gerais de direito interno dos países membros da CPLP. Importa que a ordem comunitária seja não somente eficaz e geral, mas igualmente douta, honesta, civilizada, isto é, democrática e humana.

Para tanto, a CPLP deve começar a preocupar-se, a exemplo de outras ordens comunitárias similares, com a salvaguarda de um espaço ético fundamental, que a dignifique e honre a pertença ao Espaço Lusófono.

O Espaço Lusófono deve configurar-se como um espaço de liberdade, cidadania, democracia e desenvolvimento, em que não seja perdida ou obnubilada a noção do justo limite da acção do Estado perante o indivíduo (que o Estado gere muitas vezes como entende). Pelo contrário, ao Espaço Lusófono deve interessar a formação de uma nova moral, ou uma moral política, de sinal colectivo, diante da qual os autênticos valores espirituais do indivíduo possam ocupar lugar cada vez mais primordial.

A pergunta é sempre a mesma: como achar os limites à acção do Estado diante do indivíduo e a fórmula rigorosa e justa na combinação dos fins específicos de ambos?

O fim supremo da Ética é a virtude, um conjunto de valores individuais; o fim supremo da lei do Estado ou da política é o bem comum, um conjunto de valores sociais.

Ora, não havendo verdadeira contradição entre estas duas grandezas axiológicas, estão todavia frequentemente em colisão. Importa saber “em que medida o Estado e a política podem participar na ética e lhe estão subordinados e, em que medida se poderão achar independentes uma da outra e se permitirá ao Estado reger-se por uma ética própria”.

A estas questões não deve procurar-se resposta monista radical, em virtude de que “nem só a moral do indivíduo pode fornecer toda a substância axiológica do Estado, nem a política pode sujeitar a primeira só às conveniências e fins do Estado”.

Todavia, considerando a espiritualidade e eticidade vocacional do homem, bem como a indispensabilidade da presença de um mínimo ético em todos os seus empreendimentos para que estes possam conservar um rosto humano (Moncada, L.C., 1996: 341), a realização do indivíduo deve constituir imperativo categórico kantiano para o Estado e para a política – criação do indivíduo – desde que, efectivamente, a “ideia” destes (o Estado e a política) for mesmo a da realização da liberdade e da felicidade dos actores sociais que integram.


Prospectiva


O futuro democrático da Guiné-Bissau passa necessariamente por uma acção sistémica e estrutural, no Espaço Lusófono, em que a CPLP, desinibida e digna, se assuma como factor estratégico institucional de relações internacionais de desenvolvimento para os seus membros, em coordenação com a Comunidade Internacional, numa acção permanente de observação, vigilância, denúncia e penalização de quaisquer lesões aos bens juridicamente tutelados pelo Direito Internacional, nomeadamente as ofensas à cidadania, à democracia e aos direitos humanos, bens cuja protecção é hoje assumida pela Comunidade Internacional, que os tornou independentes dos caprichos dos governantes e dos direitos internos que estes manipulam, em detrimento da ética e da moral políticas, isto é, da salvaguarda do ser humano.

Garantindo democraticamente em cada Estado membro a segurança jurídica das relações entre os órgãos do poder, entre estes e os cidadãos, entre os cidadãos entre si, e entre os próprios Estados, o Espaço Lusófono estará a garantir a paz e a concatenar recursos para o desenvolvimento sustentado das sociedades implicadas e da Comunidade Lusófona.

Pessoalmente, estou certo de que o futuro a médio prazo demonstrará a indispensabilidade do reforço da capacidade jurídica da CPLP dentro do Espaço Lusófono e nas relações com a Comunidade Internacional.

No primeiro caso, veremos nascer instituições marcantes desse reforço de capacidade, entre as quais espero poder encontrar, activos e eficazes, um Banco de Desenvolvimento da CPLP, uma Comissão da CPLP, um Tribunal Penal da CPLP, um Tribunal de Contas da CPLP, uma Força de Paz e de Defesa Mútua da CPLP, um Observatório da Democracia e dos Direitos Humanos da CPLP, entre outras instituições públicas do Espaço Lusófono do futuro.

Estou igualmente certo que o MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO e a NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI contribuirão muito para isso: para a criação de uma verdadeira Comunidade Lusófona.


LISBOA, PORTUGAL, AOS QUATRO DE JULHO DE DOIS MIL E NOVE.-

A Arte da Viagem.


Vamos fazer uma história? Perguntou com aparente despropósito enquanto olhava o quadro. Era useira e vezeira nestes pedidos tão inocentes como a frescura das manhãs. Bastava que algo lhe remexesse o subconsciente para o seu anti-racionalismo se manifestar e começar a deambular pela fértil árvore da imaginação.
Eu sabia que ela esperava e sabia o motivo do pedido: aquele quadro de Madoz que muitos veriam com a costumeira e providencial simplicidade de quem não ousa imaginar, não era o seu caso. Tinha pela vida um ávido interesse e via sempre mais, muito mais. Via significações simbólicas, metáforas e imagens onde outros não passavam da primeira e impenetrável camada brilhante. Vivia intensamente as sensações sem nunca achar que a vida era bastante, como se não soubesse ser outra coisa.
Lembrei-me de uma conversa há dias atrás acerca da arte contemporânea e da discussão que hoje se faz sobre a espontaneidade necessária e, agora, aqui estava a admirar a obra deste artista espanhol que dizia a propósito, só lhe interessar a técnica enquanto lhe permitisse obter os resultados desejados.Também ele era fértil em simbolismos estéticos e por isso a sua exposição, aqui na Galérie Fréderic Bazile, em Montpellier, era de um refinado humor surreal que punha à prova a magia da nossa psique, a magia que fascina os poetas e os leitores de poesia.

Bem… ela esperava, e a melhor maneira de viajar é partir e sentir!
Peguei-lhe na mão e dirigimo-nos ao banco em frente da fotografia de um relógio com uma correia que a imaginação simulava já ser uma linha férrea. Aquela imagem já não era física, era alma. Ela já não era corpo, era aura a planar sobre o momento.
Antes de nos sentarmos disse-lhe: - Chegámos a tempo, o comboio estava quase a partir e a manhã está a raiar. Vamos largar por aí fora!
Ela então, soleníssima, olhou-me e disse: - Pai… tens a certeza que este é o comboio do Tua? Pisquei-lhe o olho em sinal afirmativo e coloquei o dedo na boca como que a pedir respeito. Recostou-se no banco. Do seu ponto de partida olhava de sentimento distraído o quadro, quando, quebrando o impenetrável silêncio disse com um sorriso deliciado: - Que bom… adoro a paisagem do Douro…
Também eu… pensei com uma oculta e absurda vontade de soluçar.
…Perde-te, transcende-te minha filha… a meio caminho viajaremos pelos campos extensos do tempo da minha infância. O preço do sonho é a vida.

O Sem Abrigo


Demos de caras no virar da esquina e assustei-me sem saber se havia motivo. Era alto, magro e envelhecido pela pobreza visível nas mãos inchadas das frieiras e nos lábios gretados pelo cieiro. Olhou-me. Primeiro com cara de poucos amigos, mas ao ver-me assustado depressa mostrou um sorriso tranquilizador. Compreendi que a carantonha inicial com que me tinha brindado se destinava a afastar possíveis e inesperados inimigos. Reparei, olhando-o agora mais calmo, que nos braços e na cara as impigens abriam feridas, eram as feridas da pobreza que o marcavam e marcam muitos sem-abrigo nos Invernos rigorosos.
Perguntei-lhe sem grande convicção se precisava de ajuda. Ele tirando a boina suja e safada do muito uso, abanou a cabeça num movimento concordante. Arrependi-me de imediato ao ver-lhe grandes peladas na cabeça e a visão da dentadura negra e desfalcada com que me brindou.Ele avançou um passo e eu recuei um outro, ele então recuou mas eu não avancei, estava bem assim. Naquela confortável distância lancei-lhe algo contrariado a pergunta: - E precisas do quê? Ele olhou-me de novo sem falar e com a mão que antes tinha no bolso do casaco fez um gesto que entendi como um vai-te lixar.
Compreendi que o meu recuo anterior, embora instintivo e talvez por isso, lhe tinha transmitido a mensagem errada do que eu era. Eu simplesmente não esperava aquela situação, não estava preparado, tinha sido apanhado de surpresa. Quem se julgava aquele esfarrapado sujo e doente para me julgar a mim? Recuou nos passos mas um pouco de recuo nos gestos não lhe faria mal algum.
Dispus-me a sair dali e ataquei a intenção em passo rápido quando, ele num sinal de dedos me pediu um cigarro. Naquele momento e pela primeira vez tive pena de não ser fumador, não era, em consequência não tinha cigarros. Ele com novo gesto de mão despachou-me como se dissesse que não era ali desejado.

No dia seguinte voltei. Vinha preparado com um maço de Marlboro no bolso e estava desejoso de ver a cara dele quando lho mostrasse. Agora que já lhe podia dar alguma coisa queria ver se me mandava lixar.
Procurei-o sem resultado, vi nas ruas por perto se lhe encontrava sinal mas nada, devia andar por outros sítios, pensei. Convenci-me que voltaria por ali e nos três dias seguintes voltei com o maço de cigarros no bolso, mas tinha desaparecido.
Finalmente, ao quarto dia, avistei-o ainda ao longe. Estuguei o passo sempre com o olhar a vigiá-lo não fosse ele desaparecer mais uma vez e aproximei-me. Quando se virou vi que não era o mesmo, este era mais novo e sem os sinais de doença do outro, era também mais forte e mais agradável. Olhou-me e sorriu de imediato dando as boas-noites. Aproximei-me ensaiando um sorriso e sempre preocupado em não demonstrar receio. Então, quando estávamos à distância de um braço, cumprimentei-o e estendi-lhe a mão com os cigarros. Ele com o gesto de os aceitar, agarrou-me o braço e desferiu-me um violento soco bem no meio da cara.
A pancada foi tal que fiquei um bom bocado atordoado, devia ter-me partido o nariz, pensei meio zonzo e com dores enquanto o agressor aproveitava para me aliviar da carteira e outros pertences. Felizmente um grupo de Skin Heads que descia do Bairro Alto, ao verem o que se passava, puseram o agressor em fuga seguindo-o em grande correria na direcção do Cais do Sodré. Após os ver desaparecer e ter recuperado a serenidade necessária, desloquei-me com alguma dificuldade à esquadra da zona com o propósito de receber os primeiros socorros e, principalmente, para apresentar queixa devido aos documentos que o agressor levara consigo. Um dos agentes quis vir comigo ao local e apercebi-me que se passava mais alguma coisa quando me pediu para no dia seguinte me apresentar na Judiciária.
Depois de uma longa conversa com o agente destacado para o caso, fiquei a saber que o larápio agressor do dia anterior era suspeito de ter morto um sem abrigo. Os indícios apontavam para a possibilidade de ser o mesmo que procurei.
Ao ver que a informação me abalara disse-me que os familiares do homem vinham a caminho para a identificação, mas era necessária também a minha confirmação de que era aquele homem que eu procurara e que tinha visto naquela noite. Movido pela curiosidade acedi deslocar-me com um agente à morgue para a necessária identificação.
Acabados de chegar fomos informados que o irmão do sem abrigo já o tinha identificado. Dirigimo-nos à sala onde estava o cadáver e ao transpor a porta dou de caras com o meu pai que, lavado em lágrimas, me olhou surpreendido.Atónito, instantes depois e pela sua boca, fiquei a saber que aquele sem abrigo era seu irmão, portanto meu tio. O tio mudo desaparecido e de quem eu ouvia falar desde que me lembrava.
Fazia dezoito anos que nunca mais soubéramos dele, agora, devido a um papel encontrado no bolso do casaco onde alguém tinha escrito que ele era o José Emanuel Laranjeira e que procurava o irmão António Leonardo Laranjeira tinha sido identificado.
Quando interiorizei a informação, já sabia que era essa a ajuda que ele queria. Ao avançar para mim preparava-se para me mostrar o papel, e eu, seu sobrinho, tinha recuado com medo.
Instantes depois compreendi finalmente que não era medo. Era algo pior, mais profundo e enraizado, era um mal de alma.

Sub-coisas ou (vá lá) contos de leitura rápida.


Segundo ela, ele era um medíocre tuga, xico esperto.

Banqueteava-se enquanto ela não parava de o criticar devido à sua propensão para o dislate. Quando azedava, instintivamente, brindava-o com o seu jeito para a associação de expressões, e foi com um sorriso meio trocista meio insolente que lhe pediu o galheteiro.
Ele, conhecendo-a, não resistiu a comentar que os sons polifónicos o incomodavam.
Tudo isto, instantes antes, da faca da carne ter aterrado no seu peito.


Te(n)são. (ou a forma de deslocar o protagonismo para o titulo)


Chovia. Olhavam-se olhos adentro e sabiam que a tensão rapidamente subiria. Quando a mão dele se moveu na sua direcção, já ela se encaminhava para o quarto.

Divulgação. (Ou uma outra forma de festejar Abril)


2 ÚLTIMAS PETIÇÕES DO MIL: AINDA NÃO ASSINOU?...

EM PROL DA CONSTRUÇÃO DE UM ESTADO DE DIREITO DEMOCRÁTICO NA GUINÉ-BISSAU
1º Subscritor: Francisco José Fadul
Ex-Primeiro-Ministro e actual Presidente do Tribunal de Contas da Guiné-Bissau
http://www.gopetition.com/online/26953.html

CONTRA A PARTIDOCRACIA, EM PROL DE UMA VERDADEIRA DEMOCRACIA REPRESENTATIVA [EM PORTUGAL]


ENTRETANTO, AS NOSSAS OUTRAS 3 PETIÇÕES CONTINUAM ON-LINE:

POR UMA FORÇA LUSÓFONA DE MANUTENÇÃO DE PAZ:

EM PROL DE UMA MAIS RÁPIDA IMPLEMENTAÇÃO DO ACORDO ORTOGRÁFICO:

CONTRA A "DIRECTIVA DO RETORNO" E EM PROL DO "PASSAPORTE LUSÓFONO":
http://www.gopetition.com/online/20337.html

"Qualquer petição subscrita por um mínimo de 1.000 cidadãos é, obrigatoriamente, publicada no Diário da Assembleia e, se for subscrita por mais de 4000 cidadãos, é apreciada em Plenário da Assembleia."


O MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO é um movimento cultural e cívico recentemente criado, em associação com a NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI, que conta já com quase um milhar de adesões, de todos os países lusófonos.
A Comissão Coordenadora é presidida pelo Professor Doutor Paulo Borges (Universidade de Lisboa), Presidente da Associação Agostinho da Silva (sede do MIL).
A lista de adesões é pública – como se pode confirmar publicamente (http://www.novaaguia.blogspot.com/), são pessoas das mais diversas orientações culturais, políticas e religiosas, pessoas dos mais diferentes locais do país e de fora dele.
Se quiser aderir ao MIL, basta enviar um mail: adesao@movimentolusofono.org Indicar: nome, e-mail e área de residência.


MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO (
http://www.movimentolusofono.org/)
Blogue associado: NOVA ÁGUIA: O BLOGUE DA LUSOFONIA (novaaguia.blogspot.com)
SEDE: ASSOCIAÇÃO AGOSTINHO DA SILVA (Rua do Jasmim, 11, 2º – 1200-228 Lisboa; E-Mail: AgostinhodaSilva@mail.pt; Tel.: 21 3422783 / 96 7044286; http://www.agostinhodasilva.pt/; NIF: 503488488; NIB: 0033 0000 2238 0019 8497 2)

Caminhantes do Apocalíptico


Sentia-se profundamente satisfeita, olhava-se dentro de si e via-se calma, isso era de tal forma reconfortante que só lhe apetecia ficar ali deitada, naquela lassidão dormente com o pensamento a deambular pelo que ocorrera há pouco. Olhou o relógio e verificou que tinha passado uma boa meia hora desde que ele a deixara, sorriu e tentou memorizar cada momento com receio de os perder. Coisa inaudita, procurava nos esconsos da mente cada segundo, cada êxtase, cada vez que se viera. Quantas teriam sido?… Só sabia que fora um verdadeiro apocalipse. Tinha fodido com muitos gajos e gajas, mas como aquele não, aquele era único, proporcionara-lhe momentos que nunca pensou serem possíveis de atingir. Sob aquele aspecto gótico, escondia-se um luxuriante rei do sexo, um mestre que o servia com entendimento.

Com passos lentos caminhou na direcção das vozes bem dispostas e enquanto se aproximava, embora procurasse mostrar-se desinteressada marcando posição de que o ali não era tudo na vida, o pensamento não despregava da visão daquele macho exemplar.
Entrou e verificou que os três já lá estavam, tinham o charme do ócio e conversavam sobre um filme qualquer até darem pela sua presença. Calaram-se então e olharam-na inquiridores e expectantes…
Mostrou-lhes um sorriso denunciador que os fez cumprimentarem-se e motivou a abertura de nova garrafa de champanhe, enquanto Helen, atenta ao que se passava, subia o volume da música. Nunca até hoje, Van Der Graaf Generator, lhe parecera merecedor de atenção.
O marido aproximou-se com um sorriso rasgado e confidenciou-lhe: –Cheguei a pensar que não te querias juntar a nós, começava a ficar preocupado. Sorriu-lhe com brandura e deixou-se conduzir até ao sofá central onde Juvenal a esperava com uma taça de liquido borbulhante.

Chegaram a casa já noite cerrada e pela primeira vez dirigiu-se ao marido: –Então, que achaste da Helen? –Fabulosa! Respondeu-lhe João antes de poder atinar com um tom para voz, acrescentando: –Uma mulher extremamente fogosa, algo tímida no início, mas quando se libertou foi uma experiência fantástica, sem dúvida a melhor parceira desde que nos iniciámos, e saber que esta era a primeira vez deles deixa antever encontros inigualáveis no futuro, talvez os convençamos noutra ocasião a fazermos uma sessão a quatro. E tu, que dizes do Juvenal? –O mesmo que tu da Helen, começou aparentemente com alguns cuidados, mas com o meu incentivo rapidamente se descontraiu fazendo-me ir às nuvens várias vezes, o gajo é excepcionalmente dotado. –Mais do que eu? Perguntou João. –Não me referia a isso, embora o seja uns bons cinco centímetros, respondeu como se falasse do que calhasse, afável mas sem reservas, e continuou, mas não é isso, é a forma como os usa e usa todo o seu corpo, é a forma como ele gosta de mulheres… não esteve ali só a meter-mo, longe disso, ele deu-me o melhor sexo que alguma vez tive.
Ao ver que João tinha parado, com algum resíduo de surpresa pensou que talvez tivesse falado demais, mas a relação deles sempre tinha sido muita aberta e, como bons swingers, sempre falavam do desempenho dos seus parceiros abertamente, sentindo-se privilegiados por terem conseguido ultrapassar todas as barreiras e todos os tabus desta sociedade acanhada e hipócrita, além de que, desde que começaram a swingar, a relação entre eles tinha melhorado imenso e por isso perguntou-lhe: –Que se passa, parece-me que ficaste contrariado com o elogio que fiz ao Juvenal?… – Não, não foi o elogio em si, foi a forma, o jeito e o brilho nos olhos com que o fizeste, nunca te tinha visto elogiar assim nenhum swinger, nem ninguém, dá ideia que desta vez te envolveste de forma diferente.
– E então?… devias ficar satisfeito por finalmente ter encontrado um parceiro que me satisfaz plenamente, coisa que já aconteceu contigo e pelo que me disseste, a Helen, também não se saiu nada mal, pois, dizes que foi a melhor até agora, assim, só pode ter sido excepcional.

João compreendeu as razões de Marta, mas havia qualquer coisa na forma como tinha elogiado o Juvenal, que ultrapassava os limites do usual, via que ela estava diferente por comparação a todas as outras vezes em que depois de se despedirem se distanciavam mentalmente dos parceiros até novo encontro, desta vez não e isso era evidente, evidente até demais, já que, Marta, não parecia desejá-lo junto a si, parecia satisfeita, e ao contrário do que era costume hoje parecia não precisar das suas carícias e de saber que ele ainda a amava, por isso ficou a remoer por alguns instantes em tudo o que se tinha passado. Lembrava-se que quando aceitou a taça de champanhe das mãos do Juvenal, esta lhe ter acariciado a mão e os olhares se terem fixado demoradamente a ponto de Marta enrubescer, ele tinha levado isso em conta de alguma timidez que ela por vezes ainda revelava, mas via agora que não, não era timidez, havia ali algo mais.

Marta não dava conta dos pensamentos do João revelados no silêncio preocupado, os seus pensamentos navegavam já em outras águas. A recordação dos momentos com Juvenal era muito intensa, de tal forma que parecia senti-lo ainda dentro dela… as suas enormes mãos a apalpar-lhe as mamas enquanto uma língua bem treinada a penetrava com carícias suaves intercaladas de explorações mais viris. Gostou especialmente quando ele a comeu por trás sem nunca ter deixado de a massajar.
Estes pensamentos foram suficientes para se sentir de novo molhada, o que a fez sair daquele estado com um pequeno grito sobressaltado ao verificar que o João estava plantado à sua frente a olhá-la e os seus olhos eram reveladores do que sentia, tinha percebido o seu abandono aos pensamentos e tinha constatado o desejo a dominá-la.

Quando falou, espumando raivas de certezas abaladas, atirou com os infinitos de forma bem audível: –Acabou! Não o vês mais!
Marta sentiu um choque dentro de si e o sangue a percorrer-lhe todo o corpo, a sua cara estava agora afogueada. Olhou em desnorteio para o João e chispando centelhas de ódio e raiva, gritou-lhe: –Não te atrevas, meu cabrão de merda! João levantou a mão com intenção de lhe dar um estalo que não chegou a surgir, alguém lhe agarrara o braço com uma força tremenda travando-lhe ali a eloquência do gesto. Espantado, olhou-o, enquanto tentava libertar-se… que faria ali o Juvenal armado em puritano castigador dos seus desbragamentos?…
Este tinha um sorriso trocista quando falou: –Sabes João, não te canses porque nunca irás perceber o vaivém do palco dos nossos actos, o essencial escapou-te. Naquele momento fitaram-se como se algo decisivo estivesse suspenso. Segundos depois ele disse: –Lembras-te do acordo que assinámos no nosso encontro de conhecimento? João lembrava-se, mas não via que interesse poderia ter aquele documento no caso, aquilo era coisa de parcos méritos, não passava, ao que lhe pareceu, de desenhos confusos e só o assinou por eles terem sido irredutíveis. Aliás, ele assinaria qualquer coisa para comer uma mulher com a Helen.
Juvenal, olhava-o agora de cima dos seus dois metros de altura que lhe pareciam o dobro devido à posição que a torção de braço o obrigara a tomar e movimentara todos os seus alertas. Começou a ter receio daquele homem antes afável e de extrema simpatia.
Com um sorriso algo irónico, Juvenal, falou com uma voz sibilosa que o arrepiou: –Somos fragmentos do Uno Mal’ak, enviados do espaço-tempo pela Mãe Impronunciável com a missão de desviar braços dos Anjos da Esfera Eterna para a Celestial ordem Luciferária, e Ela, construiu com o seu desejo iniciático uma ponte entre o espaço-tempo.
João não sabia o que pensar, aquilo tinha algo de satânico e diabólico, os seus olhos seguiam agora Marta que se aproximava de Helen e que só agora percebera no fundo da sala. Sentiu que não dominava a situação porque não a percebia e porque era obrigado por aquele braço de ferro a ajoelhar de tal forma que a sua face esquerda estava espalmada no chão.
Por fim, Juvenal, disse: –Tu ficas, sabemos das tuas qualidades como preparador de almas neste decaído mundo, terás o usufruto da tua estulta impostura, mas serás a Minha Palavra!

O Momento...


Não o tinha premeditado, surgira num repente quando inconsciente abriu a gaveta das facas. É desta!… pensou enquanto mordia o lábio inferior.
Ouviu vinda do quarto a voz do Manuel que gritava: - Então Marilú, é p’ra hoje? E pensou com os seus botões: ai não que não é, é já! A sua mão direita num gesto continuo e repentino agarrou as facas em molho enquanto a esquerda, num movimento único, se apoderou das chaves.
Quando franqueava a porta gritou na direcção do quarto: - Man’el, venho já! Vou ver s'ainda agarro o amolador.

Outros caminhos na dulcíssima distância dos hábitos.


Caminhava com o ritmo marcado, não se lembrava de onde vinha nem lhe eram claras as cores essenciais, mas isso não parecia incomodá-lo por mais irónica que lhe parecesse a distanciação com que encarava o facto.
Era um homem de baixa estatura, de aparência um pouco míope e uma pequena calvície na fronte, vestia fato completo azul-escuro, camisa branca e uma gravata azul ciano. Os sapatos reluziam avassaladores do polimento e, estranhamente, sem uma dor digna de nota, não conseguia deixar de arrastar o pé direito sempre que dava um passo. Essa era a única preocupação denunciada pelas rugas ligeiras em ambas as faces e pelo facto de há muito não se sentir tão bem; aquelas malditas articulações que o apoquentavam há anos hoje não davam sinal, só aquele arrastar do pé que teimava em marcar o ritmo e a dormência do braço do mesmo lado lhe desviavam o pensamento do objectivo da caminhada.

Quando vislumbrou o sopé do monte que se tinha descoberto aos poucos, sorriu pensando que o objectivo estava próximo, ali mesmo à sua frente. Sentia-se bem para encarar a subida até à oliveira que teimosamente decidira medrar naquele cume inóspito longe do ondular secreto das planícies.
Finalmente chegou, há muito que ali não ia mas verificou com satisfação que tudo estava na mesma; a oliveira e o mato rasteiro dobrados pela voz do vento agreste de norte, teimavam em ali permanecer.

Olhava à sua volta quando viu o Carriço assomar por detrás da raquítica oliveira e caminhar na sua direcção de rabo a abanar em sinal de contentamento. Logrou ter visto gotas de água nos seus olhos imediatamente antes de este lhe saltar para os braços quase o fazendo cair.
Quando conseguiu que parasse de lhe lamber a cara e o acalmou, reparou que a trela de corrente estava pendurada na oliveira. O Carriço percebendo de imediato a intenção, de rabo a abanar colocou-se em posição para que o dono o prendesse.
Finalmente, quando estavam prontos para a partida, sem qualquer lamento entendeu o motivo da caminhada: algo lhe dissera que o Carriço o esperava naquele local onde no ano passado o havia enterrado. Não quisera partir sem o dono, esperara por ele, pelo seu tempo, e naquela tarde de Outono, um raio de sol estival que pareceu absorver a liquidez das rochas uniu-os como frutos da mesma árvore.

Só os idiotas são verdadeiramente inocentes. Já o dizia Pamuk.

Acordo, e ainda em torpor, com delicada cadência leio no número dois da “Ler e Depois” do passado Janeiro, uma entrevista a João do Nascimento, que editou na Portugália o “escrever enquanto todos dormem”, prefaciado por Valter Hugo Mãe, que nos chama desde logo a atenção para a perplexidade de não encontrarmos neste livro as maiúsculas da praxe e que, iremos também encontrar uns hífens metidos-entre-palavras onde nunca os viramos antes. Até aqui nada de anormal e nenhuma compulsão na assunção de opinião me ataca e estou até disposto a concordar com esta ordem de pensamento mesmo não sendo a minha. Mas já estranho que (coisa para me dar motivos para rir não fosse o torpor instalado), logo no inicio da entrevista, à pergunta sobre o atrevimento de ignorar as regras da pontuação escrevendo em minúsculas e utilizando o hífen para ligar palavras onde ele não existe, responda o João do Nascimento, que: “…advém da evolução natural e, simultaneamente, trabalhada, de um estilo que ambiciono próprio…”.

Ora, com a devida respeitabilidade e seriedade que o portuguesinho gosta, uma coisa é certa; o João do Nascimento, que deve ser pessoa de vários enlevos e que adora o seu universo, a continuar nessa linha de raciocínio nunca irá encontrar o tal estilo próprio que ambiciona, aliás, o Valter Hugo Mãe, bem lho podia ter dito já que, em prefácio num outro livro que agora não recordo o titulo e me falta a paciência para procurar, fala da originalidade do ponto e da escrita em minúsculas, que usa, e de ele próprio ter sido também vitima dessa estranheza, pois, assim, escusava o João do Nascimento de incorrer no desagrado de pretender ter o que nunca foi dado para adopção, embora ande por aí nas mãos de bons e maus escritores e, nalguns casos, de forma tão desajustada que mais parece uma espécie de alquimia da montagem ou um quadro de tensão doméstica.

Para um entendimento saudável, embora amargo do que acabo de dizer, e porque nomear valoriza, universaliza e cria um espelho onde outros se podem mirar, importa dizer que, este “estilo”, que adquiriu uma particularidade vagamente nómada que está na génese e no desenvolvimento de algumas discussões e que já passou pelas casas de Al Berto, Herberto Helder, Gabriela Llansol, etc, aparece em 1981 (hélas, a coisa é contrariada pelos factos. (e pela física dos materiais.)), em conjunto com o travessão entre palavras e no fim de frases (que mais tarde se viria a estender), no primeiro livro de poesia da mesma autora do ecléctico e expositivo livro de contos, “a mais loura de lisboa” editado pela Difel (vá, respirar fundo, um, dois, três, expirar devagar…), e, sobre o assunto dizia então em 1984, David Mourão Ferreira, depois de se referir à riqueza imaginística e à variedade de ritmos da autora:

…importa igualmente sublinhar como essas virtudes se vêem aqui «servidas» pelo próprio processo de pontuação adoptado pela autora – ­processo que não constitui, de modo algum, como por vezes acontece em outros escritores novos, um simples tique de expressão ou um mero maneirismo gráfico, antes o modo muito adequado de sugerir, na teia criada pela «corrente da consciência» a partir de certos instantes, que o ponto final representa apenas uma pausa provisória e que a minúscula que se lhe segue mais não faz que retomar o fluxo daquela corrente…”.

Ora, perante tal categorizada opinião, restará talvez aos escritores serem eles próprios na sua inteireza e não meros re.fazedores do "inédito" já feito, pois, nada mais fazem que tactear na escuridão.

Nota final para os impolutos avessos à critica e que reduzem quem a faz a um tipo predefinido de indivíduos:

E Jesus disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda a criatura.
Quem crer e for baptizado será salvo; mas quem não crer será condenado.
Marcos, 15-16.

A Alá pertencem Oriente e Ocidente.
Alcorão, A Vaca, 19.

Para os que engolem antes de provar


Escreveram-me dois seres indignados; um orangotango e um babuíno, cujas respectivas orientações sexuais não tenho o prazer de conhecer e descarregaram a bílis; primeiro no meu e-mail e depois na caixa de comentários que felizmente está protegida contra ameaças à saúde pública.
No entanto, acredito, que por detrás de supostos estatutos morais, éticos, filosóficos, etc., produzidos pela medula destes caridosos seres despeitados e desnutridos de qualquer materialismo dialéctico, está um respeito sincero (razão da atenção dispensada à humildade de génio e superioridade magnânima do autor deste post) que considero ser necessário alimentar em vez de destruir.
Sei que, vivemos tempos moralmente dissolutos, tempos em que é urgente resgatar uma certa corrente filosófica que dá relevância primordial ao que, em cada sociedade ou civilização, se herdou do passado como hábitos e procedimentos razoáveis, e é nessa conformidade que todos merecem a oportunidade de se retractarem de forma a harmonizar na medida do possível os valores em causa.
Sabemos que há uma fracção da "população que se destingue" por carregar as malas dos outros, mas, estes seres, muito embora de sociologia simples, estão longe de se constituir como uma entidade sociologicamente coerente, são, antes, um grupo profundamente perdido numa fronteira inusitamente clara: como não são grandes máquinas na prudência e cálculo das consequências das suas acções, abocanham competências para que não estão preparados devido à sua herança genética, ou seja, a sua cultura é o reflexo de meia dúzia de idas ao café onde, entre bagaços, adquirem dotes para tudo o que é mesquinho e reles na lógica das velhacas traicõezinhas para abrilhantar o ego, próprias de quem não tem coluna vertebral.

Sei que ainda tinha em mente mais uma palavrinha ou outra para este grupo de seres que coça os testículos enquanto conversa com alguém, mas por agora só me recordo da dos filhos da puta, fica, pois, para outra ocasião.

Entrada posterior: A Alice Macedo Campos, voltou e está AQUI.

O primeiro é com mel de rosmaninho

Chove na minha rua, olho através dos pingos que escorrem na janela donde espreito o dia e hesito na intenção de me vestir e sair. Hoje a indulgência não anda por aqui, talvez por isso, de pensamento vagabundo e uma módica ponta de ironia, mando bugiar o tempo já que está tempo para isso… sem pormenores, sem banalidades, sem precisar fazer sair a fala não se vá esta espojar nas costumeiras expressões indelicadas onde só se atiram as frases.
Assim, de forma irrepreensivelmente irrepreensível, papo um, dois, três noticiários… ouço alguns democratas do champanhe e caviar ideológico, avessos a análises desapaixonadas e despartirizadas, proferirem nas suas brincadeiras opiniáticas tantos e absolutos imperativos categóricos que já não respondem às múltiplas situações dilemáticas que surgem, que me dão vontade de os correr a varapau… que corjazinha… que caquinha esta que nos tenta enfiar o garruço… que rico novo ano que não se abre à análise e avaliação de contextos… veio parecido com a modorra que tomou conta do país em tempo de self-fulfilling prophecies… mudam as moscas mas a dimensão da alma humana continua igual, nada de tolerância no edifício atraente que é livrinho dos pascácios…
Para quando a regeneração?… Para quando uma ética de responsabilidade solidária?…
Que filho-da-puta de tempo este o tempo de se tirar o chapéu aos taralhoucos irreverentes e malcriados e aos eruditos dos bons princípios e gorduras democráticas donos de muita asneira de porte considerável?
Que filho-da-puta de tempo este!?…que vá bugiar mais essa cambada de chupapiças pouco fiáveis! (ui, lá me saiu, mas como diria a minha amiga Maria, pessoa de esmerada educação, que se foda!)
Está tempo para ler os Simples do Junqueiro.

Não existem limites para os nossos sonhos, basta acreditar!

A ti, que por aqui continuas teimosamente a passar, desejo-te um maravilhoso Natal. Um Natal de retemperação.
E, se tiveres de correr por algo, que seja pelo amor e sua eterna força, pela raiz vibrante da paixão que desagua nas palavras que estão dentro de ti, pela alegria de um coração a dançar, pelas pessoas que te gostam de ver rir, pelo doce de um beijo, pela saudade daquele abraço que te forra a memória e escorre qual rio, pela paz de uma paisagem de mil cores no meio do nada, por uma lágrima da lua, o perfume da rosa ou a cor do mundo que se dá, que se revela na sua verdade com um sorriso de esperança.

Para 2009, faço votos para que te consigas livrar daquelas acções de desmedida e mentirosa tendência que ninguém quer, que saibas rir quando te falarem da fereza da competitividade, que não te chegue aquele vendaval que dá pelo nome de crise e fabrica demónios de carência, que passes ao lado dos downsizing de fronte alheada e vaga e tenhas mesa farta e um pote de ouro no recôndito do teu lar, que nunca conheças a sanhuda face do outsourcing ou a dos recibos verdes e, finalmente, que as reduções de custos e a maldade milenta das habilidades sinergéticas, as leve o ermo vento como sombras do passado.

Boas festas e que o cérebro te inche de novas e boas ideias.

Já não existem álamos, nem luas, nem métricas que me valham.

A mão está pesada… e a pena, véu de alma transparente já não me embala, nada surge neste descansar de nada… não escalo montanhas, não atravesso oceanos, tão-pouco enfrento tempestades, e pergunto-me no desalento, no desencanto, na tristeza esparsa sem nenhum motivo de pranto, para onde foram as palavras?…
Que fiz dos infindos tesouros recolhidos e guardados na pele… onde se recolhe o mistério do imaginário quando desaba o silêncio sobre os crepúsculos negros de tristeza que misteriosos me rodeiam e porque quero tanto o que ninguém me pode dar?
Chove e interrogo-me na tarde lívida se a tristeza das gotas que caiem será minha, que sabor será o do grito que expressa sentimentos e teimo em calar, e quantas serão as palavras nuas de diferentes paladares que se debruçam a poemar.
Mas para quê interrogar-me? Não sei que fazer com as palavras que transporto neste tempo de horas certas em tempo que não é certo e onde os ângulos se não encaixam, da pressa para tudo até para não se ter pressa dos dedos entrelaçar no calor necessário de um ombro amigo no qual chorar… resta-me lamuriar por ser tão como os outros, tão singular.
Olho pela janela em busca da luz que se reflecte nos sorrisos, dos passos que dançam tangos de olhos unidos até cegar, da mágica brancura dos sentimentos cristalinos, das sombras esbatidas que se abraçam num poema ou na ternura de um olhar, do dia em que nas minhas mãos sentirei o sentido das tuas como palavras nuas que não poderei calar, da bússola, de um mapa, de um paralelo dobrado num qualquer canto de luar…

A chuva parou, e o céu, devagar, mesmo devagarinho, sem pressas, seguindo o seu caminho, abriu um sorriso único… eis então que a página, incontida se moldou, e subindo às palavras de azul se manchou.

Apanhado com mirabolante facilidade na teia da loucura.

A mulher que rondava os trinta anos gritava para quem a queria ouvir que, aquele ali, apontando um indivíduo dos seus quarenta com ar de redfish baratuxo, era um patife. - Enganou-me, gritava, e enquanto puxava pela mão de uma rasteirinha de olhos arregalados, continuava: - E agora este merdas nada quer dar para a criança, nem sequer o nome. Bandido! Filho-da-puta!…
Os curiosos que se tinham juntado para assistir ao desacato, possuídos daquela facilidade que nos caracteriza em tomar partido sobre qualquer polémica, davam a sua contribuição condenando já o homem, a maioria, dizendo que há gajos que são uns bandidos, querem é dar uma queca mas depois não assumem a responsabilidade, outros, defendendo que a criança não tinha culpa dos erros dos adultos e, era imoral, no mínimo, não ter o nome do pai. Tudo isto dito de forma sintética e desengordurada.

O alvo da confusão estava estupidificado; ora olhava a mulher, ora olhava as pessoas, sabendo estar metido numa grande alhada. Por vezes, nos milimétricos silêncios tentava dizer qualquer coisa, mas logo a mulher teimava em lhe estragar o encanto das palavras berrando-lhe a plenos pulmões que ele era um bandido, que a tinha enganado, que as havia de pagar, que a mãe bem a tinha avisado… Tudo isto numa gritaria tal -como se lhe despejassem em cima calhaus a ferver, que se ouvia de uma ponta a outra da Gare do Oriente.

Não cheguei a saber para quem ficaram os méritos e os deméritos, ou tão-pouco quem arcou com a fúria daquelas gentes, embora, o alvo, fosse mais óbvio do que a boa música ter a ver com o “soar bem”, não assisti ao resto da discussão, não sou grande apreciador, estas apertam-me o peito e causam-me tal ansiedade que me leva directamente à cerveja, por isso fui andando.
Enquanto me afastava, continuei a ouvir os impropérios da mulher que sobressaíam do vozear da multidão que ia engrossando à volta dos desavindos.

No dia seguinte, fazendo o mesmo percurso, reparei ainda de longe que havia outra confusão precisamente no mesmo local. Enquanto me aproximava, reconheci os gritos da mulher que gritava a plenos pulmões os mesmos impropérios da véspera; que ele era isto, que ele era aquilo, que não dava nada à criança… e os curiosos à sua volta, tal como antes, tratavam de tomar partido e dar a sua opinião.

Tudo igual ao que tinha visto no dia anterior com um pormenor que fazia toda a diferença e tornava cândida qualquer tese que tivesse desenvolvido. Incrédulo, avancei para me certificar e constatar sem sombra de dúvida que este era mais forte e mais novo que o outro, até mais alto, este homem, era óbvio, nada tinha a ver com o redfish baratuxo de ontem.

Saí dali a correr, pelo caminho, sorridente, dei uns pontapés na fronteira artificial dos moralismos que ontem se tinham encavalitado, sabia que já me esperava um arroz de lingueirão com jaquinzinhos fritos.

Nota: Conto revisto e republicado porque sim.

Lances diferentes e novos enlaces.

Talvez a vida seja um jogo inconsciente onde pretendemos dominar o sentir.
Talvez por o amor ser mais importante do que os danos infligidos, os descuremos frequentemente.
Talvez sejamos, afinal, apenas peões inquietos em tabuleiros de negros dias e noites brancas de denso sentir.
Talvez, talvez, talvez…
Talvez por isso eu beba a poesia devagar enquanto outros correm apressados sem saber o que está ali… nas pequenas dobras do tempo… no que é importante e também nas coisas sem importância, com seu ritmo simples e quotidiano na estrita conta do tempo sem tempo.

Talvez para os poetas as palavras e os silêncios sejam sinónimos em significância... que afagam na cumplicidade e ferem na dor, não importa… têem sempre o sabor doce da ternura mesmo quando sabem a sal ou se escapam num fio de vento pelas metáforas... quando criam um estuário de novas figuras da linguagem ou transformam as banalidades em pequenas epifanias, quando agarram nas palavras gastas e as vestem com as cores dos sentires e do sonhar.

Talvez, sensatamente, um poema não se repita como não se repete um conto, um saudoso mar, uma fotografia sob a mesma luz natural ou a exacta inclinação dos raios solares, naquela mesma árvore, com aquele número incognoscível de folhas vergadas ao vento…
Cada poema tem o dever de falar, tem o seu próprio ritmo que nos envolve e atravessa, que ecoa um outro tempo, um outro espaço, com uma cor que é afinal um espaço sem cor à espera de ser colorido por um ouvido atento…

E,
porque só os poetas podem salvar as palavras, AQUI, um sentir denso… uma pétala de rosa azul a chorar…

O Maneirinho


Dircelina, lembrava-se bem de quando chegou com a maleta de mão trazendo por companhia a sua cor preta, a pouca escolaridade e o estigma de um país em guerra. Vinha para trabalhar neste que por lá era visto como a árvore das patacas e, por via disso, a esperança fizera-lhe companhia, aconchegara e soprara-lhe docemente no peito dizendo-lhe em surdina: vais conseguir. Para trás, para lá dos ventos vindos dos mares, ficava a família: mãe, duas filhas pequenas e quatro irmãos. Dois deles estropiados. Era tudo o que a guerra não tinha levado e nisso não queria pensar. Aquela era a altura das grandes tarefas, o momento que ambicionou e não tinha receio de confrontar. Para isso contava com outra grande aliada: a vontade inabalável de vencer.
Aquele emprego que um antigo amigo do seu pai lhe arranjara não era o que pensava, esteve para o recusar, não o fez pela miserável fome que já há dias a acompanhava, mas hoje, dez anos passados, sabia que tinha ganho a grande prova. A tristeza do primeiro dia em que obrigada se deitou com um cliente e depois com todos os outros que se seguiram, eram passado assim como as lágrimas que abriram sulcos nas suas faces de ébano.
O desejo pelo seu corpo esguio e musculado do trabalho na sanzala, tinha-lhe garantido uma posição privilegiada entre as escravas do Maneirinho e, desde muito cedo, traçara o seu plano.
A vinda da família acontecera já depois de ter conseguido casar com o Maneirinho, a seguir, foi um passo até o convencer a investir o dinheiro ganho com a escravatura num negócio que ela e a mãe passaram a controlar, por fim, ele começou a gostar daquele chá que, com receita da sua avó, a mãe lhe ensinou a fazer e que provocava no Maneirinho o estado esfuziante de alucinada embriaguez.
Foi nesse estado que o convenceu ser ele capaz com a força do querer, parar o rápido Lisboa-Sintra.
Postada no apeadeiro ainda lhe notou incerteza no olhar, um despertar a destempo quando, no meio da linha, viu o comboio aproximar-se.
Por fim, num murmúrio quase inaudível, quase indizível, melodiosamente disse: faz as tuas contas com o diabo.

Nota: Conto revisto e republicado porque sim.

Há mais mundo!… o arco-íris reflecte-se em sete cores!…

Não chove lá fora, mas o dia é triste como se houvera chuva e as crianças partissem para longe da infância ingénua, para longe de toda a graça entressonhada, sem um pesar, uma dor sequer.
De sentido alucinado desprezo o mundo que em seguida abraço, removo-lhe as crostas duras da verdade rotineira, subverto a realidade comum neste jogo de aparências e, consumido de alterabilidade, não respondo à voz interior que balbucia: quem és tu no outro lado do espelho deste jogo ontológico?

A vida não passa de uma confusão cósmica de conjugações vãs e difíceis, onde só Viver! e Amar! têem significado depois de ceifadas as expectativas que nascem das palavras.

Corre um rio de interrogações enquanto olho a estrada esfíngica das horas mortas e, na confusão do caos que trespassa os meus olhos cerrados e me freme o peito, debato-me com um débil grito, um murmúrio: há mais mundo!… o arco-íris reflecte-se em sete cores!…

A Orgia Estéril da Mentira… (*)

Descalcei-me e enterrei os pés na areia húmida da chuva que caíra pela manhã. A sensação, enquanto olhava o mar cinzento e chão, dos grãos de areia entre os dedos era relaxante … era o momento de preia-mar, onde pequenas ondas num bailado repetitivo lambiam a areia e bandos de gaivotas esperavam pela noite. Muito cedo, pensei… falta uma boa hora para o crepúsculo as abraçar… o céu, carregado de nuvens, denunciava que a noite não seria serena nem de luar.
Embriagado indolentemente pelo cheiro da maresia e o som cadenciado da rebentação, via-a ao longe e fixei-a enquanto caminhava na beira do mar. À medida que se aproximava admirei-lhe a forma esguia, o cabelo negro solto ao vento e o vestido leve. Vinha descalça, com uma toalha azul pendendo da mão. Nisto, e sem que algo o fizesse prever, virou-se repentinamente e caminhou na minha direcção.
Em choque de prazer, olhei-a com inconsciente e estéril pensamento. Que quereria aquela insólita e linda sereia de mim?… Parou quando chegou perto e depois de um instante cumprimentou: - Olá, boa tarde. Respondi-lhe dizendo que a tarde não fora grande coisa até àquele momento, mas tudo indicava que podia melhorar. Ela sorriu mas nada disse, estendeu simplesmente a toalha uns três passos à minha frente e sentou-se admirando o mar. Aproximei-me e sentei-me a seu lado, guardando uma distância educada mas não conservadora, já que, tinha sido ela que convidativamente se aproximara.
Puxei um cigarro sem parcimónia com a secreta esperança que um novelo de fumo amenizasse a conversa e, pensando que no linguajar é que está o ganho, acendi-o. O clic-clac clássico do zipo de estimação, pareceu interessá-la. Perguntei-lhe se queria um cigarro… aquiesceu estendendo a mão. Passei-lhe o maço donde tirou um voltando a estendê-la pelo zipo que me apressei a colocar na alva e frágil mão que senti quente e macia. Acariciou-o como uma apreciadora enquanto lhe admirava a finura de dedos. Acendeu-o, protegendo a chama do pouco vento com uma delicada mão em concha e após uma forte puxada, perguntou-me o que fazia ali… respondi-lhe que descansava de um dia demasiado complicado, e, enquanto o fazia, embalado na orgia do prazer manobrava de forma a desenvencilhar-me da aliança que teimava em não sair do anelar. Nisto, num movimento rápido e inesperado, virou-se, e mostrando uns lindos olhos de azul inocente, disse que ia ali todos os dias àquela hora num ritual que se habituara a cumprir havia anos.
Eu sabia que ela me tinha visto na tentativa infrutífera de tirar a aliança e, ao ser apanhado, tinha enrubescido desmesuradamente como sempre acontecia quando era apanhado em falta no esvoaçar da minha capa de herói. Ela não desviara os olhos e eu não era capaz de a encarar. Refugiava-me na linha agora negra do horizonte e esperava que a brisa deste fim-de-tarde, num sopro arrefecedor, me devolvesse a cor original.
O tempo escorria e eu entregue à minudência matemática de contagem das ondas tentava, num pretendo impoluto, afastar qualquer culpa; eu era homem e ela uma mulher belíssima, a tentação tinha prevalecido, objectiva e subjectiva como todas as máscaras da alma humana.
O silêncio pesado durava há muito quando ela inesperadamente me perguntou: - Que faz aqui a esta hora, não é casado? O rubor voltou ainda mais desconfortável qual punidor da velhacaria anterior. - Sou e tenho dois filhos, acrescentei como que a penitenciar-me da nabice anterior já que o propósito estava frustrado. - Ama a sua família, voltou a perguntar. Após um instante respondi-lhe que sim, não valia a pena mentir, só faria papel de estúpido.
Estendeu então a mão para me cumprimentar, dizendo: - Chamo-me Marta, sou cega de nascença.

(*) Conto revisto e republicado a propósito do post anterior e porque me apeteceu.

A verdade em defesa da mentira, num “post”, aparentemente, longuíssimo

Na vida é assim; cônscios, reflectimos sobre o real ou imaginário, tentamos iluminar o caminho de outros com vetustez e austeridade automatizada e temos sempre no camarote donde assistimos o diagnóstico das ressacas, por vezes, com laçarote até, quando, certeiro, seria sacarmos de soluções, quais resistentes entrincheirados no optimismo, para combater o depósito de valores basilares no museu da evolução humana. Mas é a educação de TV, da balbúrdia dos artefactos e até, caso em apreciação, do suborno para que a verdade, a mais dura e inconveniente, seja dita mesmo que resmungue ou grite à felicidade e destroce a própria família.
Diz o RAP, na “Visão” 811: “o que o Momento da Verdade vem demonstrar, e de forma fulgurante, é que, mesmo a troco de dinheiro, dizer a verdade nunca é boa ideia.”. Ora, se substituirmos a compreensível hipérbole do adverbio de negação “nunca”, por um conservador e ponderado “nem sempre”, concluiremos estar este carregado de razão e, com alguma liberdade poética, podemos sublinhar “que a verdade é um bem precioso, demasiadamente precioso para se partilhar com toda a gente”.
Entrando no domínio da polémica propriamente dita, o assunto dá vontade de falar porque é anedótico discutir a anedota que é este “reality show”, os jornalistas destacam-no e exploram-no, é tema de conversa nos cafés e em blogues e o que não falta é gente a contemporizar com esta mediocridade (sem nuances, porque não vale a pena aguçar o engenho). Tudo isto é triste, incluindo este “post” que aponta o dedinho qual policia dos valores morais dos outros, mas nada inocente se atentarmos na exploração básica a que se prestam estes emoticons tontos ávidos de dinheiro (corruptos?), que regridem a idade mental e engrossam a fileira das falsas virtudes colectivas.
Ou seja, correndo o risco de desenterrar alguns pruridos e passar a ser um traste em quem não se deve confiar: a mentira piedosa, bondosa, elegante, educada (como queiram), tem mais virtude que a verdade besta, imbecil e anti-social, a verdade e a mentira são complementares num aparato linguistico que, tenha uma existência que vá além daquilo que uma pessoa diz a outra numa dada ocasião.

Isto pedia mais alguns argumentos que desmontassem alguma possibilidade de polémica, mas seria ridículo dispensar mais meia dúzia de linhas a este assunto.

Canalha Miúda (breve episódio das férias)

A cena decorre no Sul do País, numa esplanada como já há poucas (perdoem-me o saudosismo), completamente ensombrada por grandes arvores.
Os personagens são o empregado e dois familiares meus e, a protagonista, é uma rasteirinha doce de quatro anos. O ritmo é o de férias, suave, como deve.

O empregado, solícito, espera a finalização do pedido.

A mãe, virando-se para a rasteirinha doce de quatro anos, pergunta:
- Queres um “Ice Tea” de manga?
- Sim!
Olhando o empregado, a mãe termina o pedido:
- É também um “Ice Tea” de manga!
Nisto, a rasteirinha criatura de quatro anos, roda a carola loira, encara o empregado e subvertendo os princípios hierárquicos, qual “franco-atirador” (comas hesitantes), complementa:
- Comprida!

Após uma fracção de tempo necessário à assimilação do singular complemento, o solícito empregado, com manifesto senso de humor, perde a compostura e resgata lá dos confins uma gargalhada que os presentes acompanham.
Claro está, como “bloguiano”, pensei: Ah, tão giro!… este tema dava um “post”. Enfim…
Deixo-vos com um aforismo de Pamuk: “Só os idiotas são verdadeiramente inocentes”.

De Regresso!?…


O regresso é difícil, sempre difícil, principalmente pegar neste blog que, nem sempre flutuando num rio aéreo, já cumpriu três aniversários.
Mails por responder, visitas para fazer, e a necessidade de desbravar esta imensa falta de vontade para publicar alguma coisa minimamente interessante… ai, ai, tanto trabalho, que perco, às vezes, os sentidos e me “bota” o humor merencório.

Procurando a inspiração nas “coisas” que me cercam, separando o que pertence a César do que pertence a Deus e sempre disponivel para aceitar os melhores contributos, passei por aqui, depois por aqui e, grata surpresa; “dizem” por lá, tomem nota, que “anda no ar uma ideia de palavras desarrumadas como sinais antigos” que se concretizará no dia 26 de Setembro, pelas 18 horas, na FNAC do Chiado.
Por via do tema, que são os livros a "verdadeira luz", passo a explicar para vos poupar os dedos e a paciência ao desgaste de seguir os links: ora, parece que, a Maria Quintans (a Bandidíssima como aqui se diz e com sítio aqui), decidiu finalmente publicar o seu livro, e este será lançado pela Papiro Editora, adiantam ainda que será “…a rigor”, talvez porque, a beleza não é imoral e a estética se relaciona com o nosso viver, ou então não é nada disso e vou ter de viver em conflito de interpretação, acabando por deplorar o facto de presumir o que não entendo.

Não conhecesse a autora e, só o titulo, “Apoplexia da Ideia”, seria um convite à leitura, conhecendo-a e reconhecendo a forte e incontestada impressão que nos deixa, “pour cause” e antecipando o futuro, sei que até o cheiro lhe vou apreciar.

Enquanto a “modorra” que tomou conta de Portugal continua e a regeneração não chega, meus amabilíssimos e amigos “bloguianos”, aproveitem, vão até lá, façam uma pausa na vossa preocupação em aumentar o PIB e verão que vale a pena.



Nota: depois da estafa que foi fazer este post, onde os imperativos categóricos me assaltaram e não obtive respostas para as múltiplas situações dilemáticas que nos surgem na vida, tenho de recuperar. Até já.